domingo, 8 de fevereiro de 2015

O PAPA E A PALMADA EDUCATIVA



Dizem que o papa é a favor da palmada na criança. Ele estava a falar sobre a família, acerca do casal unido que tem como missão educar uma criança. E disse que o acto de se ser firme, com uma palmada pelo meio, de forma não humilhante, se justificaria como uma forma de se corrigir o comportamento do petiz.
No mural onde li isto, só meia dúzia de pessoas são totalmente contra a palmada. Outras defendiam que a palmada, na hora certa, nunca fez mal a ninguém. Muito pelo contrário, quando justificada, até faz bem ao desenvolvimento. E havia quem assegurasse que apanhou e até lhe fez bem. O debate continuava entre a palmada correctiva e a palmada como violência.

Uma palmada na hora certa não faz mal? Eu acho que não vem mal ao mundo, muito sinceramente. Mas depois também posso afirmar que sou totalmente contra bater nos miúdos. Nunca me passaria pela cabeça usar a palmada como forma de educar [??], como forma de punir nem como medida correctiva para nada. Não é porque eu sou o adulto, ou eu sou o pai ou mãe que tenho o direito de bater nos meus filhos. Não é porque eu sou o adulto, ou eu sou o pai ou mãe que os meus filhos me devem respeito se a relação não for baseada no respeito mútuo. Nada, na relação entre pais e filhos, é garantido. Apenas o amor incondicional deles em relação a nós. O contrário – pais que amam incondicionalmente – também tenho dúvidas que aconteça em todos os casos.

Usar a palmada apenas me definiria como pessoa incompetente na educação dos meus filhos. Como assim?
Eu sou a mãe dos meus filhos e tenho a responsabilidade de educar e orientá-los a cada momento das suas vidas. Uma das responsabilidades que tenho é acompanhá-los, garantir que construímos uma relação com significado e que é bom fazer parte desta família.

Só nesta primeira equação estou a garantir que os meus filhos cresçam em segurança emocional, que se vejam como pessoas de valor. Mas mais ainda, para quem a questão da autoridade e da obediência é tão importante. É quando eu desenvolvo a tal relação com significado – que dá trabalho e necessita de tempo e dedicação – que os meus filhos me vão obedecer. Porquê? Porque obedecer, senhores, não é a questão. A questão é cooperar e eles só cooperam quando se sentem ligados a nós. E por muito que não lhes apeteça ir para a cama ou fazer os deveres, quando a relação é humana e boa, eles sabem que aquilo que pedimos é justo e não lhes parecerá nem um capricho, nem lhes soará a um jogo de poder. Bater para obedecer…. É um bocadinho fraquinho da nossa parte, não é?

Alguns pais têm medo que os filhos lhes faltem ao respeito. Consideram que frases como “tu és mau, não gosto de ti, não como, agora quero isto e não me calo” como uma afronta à sua pessoa e também à sua capacidade de educar. E portanto, se a coisa não vai a bem… irá a mal. E a palmada é tantas vezes o reflexo de receios que temos – que a criança dê para torta, que nos deixe ficar mal em frente aos outros… E por isso, e afinal, a questão não reside apenas na criança mas também na aflição que nos vejam como maus educadores.

- O meu paizinho deu-me muita porradinha mas eu hoje agradeço e até tenho uma boa relação com ele. Pois, e como eu disse há pouco, talvez a palmada não lhe tenha, de facto, feito mal… A esta distância talvez não se lembre – mas é muito possível que naquele momento tivesse apreciado mais outro tipo de firmeza, onde assumisse as responsabilidades das escolhas. Como assim? 

- Quando batemos estamos, na verdade, a retirar a capacidade que a criança tem de se responsabilizar pela escolha que fez. Mas isso dá muito trabalho… Mas educar é talvez a tarefa mais importante que temos na vida – e isto não é demagogia…

- É por falta de palmadas que o mundo está como está! Não, não e não! É por falta da nossa orientação. É por falta de acompanhamento, é por desinteresse ou, justamente, por darmos com uma mão e tirarmos com a outra. A maior parte das histórias de jovens que descarrilam têm pais que não querem saber ou pais opressores – e não pais equilibrados, homens e mulheres justas que sabem que quando colocam um filho no mundo é para dar o melhor que têm.

Poderia continuar por aqui fora com mais argumentos mas talvez aquele que eu considero mais forte é que eu considero-me melhor do que isso. “Sou humana” como alguns poderão dizer, “tenho as minhas falhas”, dirão outros, mas nos valores pelos quais me oriento, bater ou humilhar não fazem parte de quem eu sou. Não bato, simplesmente, porque me considero melhor do que isso.